22.11.06

Intolerance

Esta é a Babilónia imaginada por D.W. Griffith , em 1916, faustosa, imponente, rica, majestosa, digna de ter sido cobiçada pelos Arameus, Assírios, caldeus, e de se ter tornado inimiga dos hebreus, após a destruição de Jerusalém,pelos babilónios, obrigando os Judeus ao Exílio.
Como em todas as grandes civilizações,que se construiram na guerra, no saque, e na destruição, nenhum espaço resta para a "tolerância". Aliás, tolerância vem do latim tolerare, que "obriga" à aceitação "caridosa" de condutas morais, culturais e civis divergentes das do sujeito a quem é suposto ter de as suportar.

Se o mundo se tivesse construído na base da "tolerância" nunca se teriam construído as pirâmides, os Zigurats, os templos gregos, as cidades, os castelos, os palácios, as igrejas, nunca as civilizações teriam atingido o seu auge nem a sua queda. Seriamos todos muito "amiguinhos" uns dos outros cada um com o seu "quintal" sempre com o mesmo tamanho, porque chegou primeiro e porque não podia querer ocupar o do vizinho. Nunca existiria espaço público, porque agregado à tolerância vem o sentimento de que eu sou diferente, logo tenho de tolerar o outro no espaço que nos é comum, e como nenhum cede nos seus princípios, a partilha de espaço é ineficaz.
Utopicamente viver numa civilização tolerante é acabar com os conflitos, porque seremos todos capazes de viver "o nosso espaço" porque o outro não nos incomoda. Talvez o ideal de cidade tolerante seja um grande campo amorfo, onde cada indivíduo dentro da sua cápsula consiga suportar a presença do "diferente", e ao mesmo tempo mantendo-se conservado(inalterado) na sua individualidade. É uma cidade incógnita sem características culturais próprias, amedrontada, incapaz de se marcar nas pessoas pela sua demasiada "tolerância" para todos. Não tem forma, porque nem todos gostam de habitar "nas mesmas formas" (diferente de habitar da mesma forma, neste caso é mais "o lugar do corpo").
Se ser tolerante no amor é anular-se na presença do outro e o outro a mesma coisa, passam a ser o quê?
Tolerância é a bomba que detonará a civilização, porque não é suportável e só gera mais raiva e intolerância recalcadas. A contemporaneidade sofre de "tolerancietite"! O modernismo com a sua forma higienista, de emergência e de tolerância de resolver problemas a todos de forma igual, e depois, no estilo internacional, já completamente desprovidos do lugar que os "enformam" e os tornam culturalmente presentes, destruiu a relação indispensável entre o sujeito, o lugar e o seu habitar. É completamente estapafúrdio "enfiar" pessoas em lugares onde nunca moraram, nem nunca morariam. Na Madeira há bairros sociais que até têm uma "arquitectura" aceitável nos meios eruditos da arquitectura (pelo menos antes de alguém ter pela primeira vez usado a retrete) que no entanto foram autênticos fracassos para os fins a que se destinavam (não falo do fracasso da unidade de habitação da Ville marseille do Le Corbusier, porque ainda não estive lá), as pessoas plantavam couves na banheira, portanto não conheciam aquele habitar "empilhado" e segregado socialmente, e geograficamente longe da "cidade".
Uma vez num exame oral de Teoria da Arquitectura um professor interpelou-me depois de eu ter falado nas formas da arquitectura de Gaudí. Perguntou-me se eu achava a forma fundamental no discurso da arquitectura? Respondi-lhe que sem forma não há espaço e que todo o espaço resulta da relação do sujeito que habita com a forma que o "enforma" (porque somos seres em coisa física- o corpo). Embora discorde absolutamente com o modulor do Corbusier , precisamente porque este entende o corpo como uma máquina, ou seja, um somatório de elementos com determinados comportamentos mecânicos, onde se incluem exclusivamente parâmetros objectivos relacionados com métricas (médias), como se de corpos vazios de gente se tratassem.

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