29.7.08

a vida como um apêndice

"Os peregrinos procuram uma meta ignorada, e essa meta, que só conhecemos no fim, tem a obrigação de maravilhar, e não ser nem parecer um acrescento."

in "Nove ensaios Dantescos; Obras completas,vol III" , Jorge Luis Borges

7 comentários:

Ed disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ed disse...

"Os peregrinos nem sempre procuram metas ignoradas, tanto peregrino é aquele que procura ir atrás de objectivos imprecisos e infundados como é peregrino o que procura atingir a realização pessoal (e/ou) colectiva. Nem sempre temos a obrigação de ficar maravilhados ou acrescentar algo mais, se assim fosse a palavra desilusão não faria sentido. Somos eternamente peregrinos (corremos para algo) e, nem sempre alcançamos o que pretendemos. Como podemos ficar maravilhados se não atingimos os objectivos?"


Jorge Luís Borges sem dúvida um dos melhores artistas de ascendência portuguesa, no entanto por vezes um pouco irrealista e com uma forma de ver o mundo pouco infundada. Mas de fundamentos vãos já andou eu farto.

Marta disse...

Não andarão todos os "artistas" à procura de fundamento no que para a maioria será infundado, irrealizável ou fora da norma?

Aquilo que sentimos não é certamente equacionável sob a rígida perspectiva da lógica aristotélica, nem tão pouco por sistemas complexos. É falível, como nós,Eduardo.

Vivemos a pensar que a morte ou tudo o que existe é facilmente desmontado por qualquer reles explicação póstuma a todas as acções humanas. Que, espante-se, na maioria das vezes organiza-se sob a intuição do indivíduo.Ou sob acontecimentos externos ao nosso controlo.

Entendo a visão de Borges, quando fala de metas ignoradas. Muitas vezes as verdadeiras metas não são planeadas, não são sonhadas, daí a "obrigação" de "maravilhar" negativa ou positivamente.

E sr. Eduardo digo-lhe que isto tem-se repetido na minha vida, levanto-me e todos os dias surpreendo-me com o que se passa à minha volta.

Eduardo Cardozo disse...

Antes de mais tem que esclarecer o conceito de artista. O artista na minha perspectiva é todo aquele que produz arte. Depois devemos também esclarecer o conceito de arte que é não mais que criar. Tudo pode ser passível de ser arte, cabe-nos a nós classificar se o é ou não, por isso mesmo é que a arte é algo muito intimista. É certo que todos nós procuramos respostas a coisas que podem eventualmente não ter resposta mas essa meta não tem necessariamente que maravilhar, a mim por exemplo causa-me uma angústia enorme.

Julgo que está a colocar a questão de um ponto de vista muito concreto. Não existem metas exclusivamente planeadas nem metas exclusivamente sonhadas. Existe um misto de sonho e planeamento que acompanha e acompanhará eternamente o ser humano. Na minha interpretação do excerto o que o autor quer transmitir é a necessidade quase obsessiva do ser humano (peregrinos) procurar metas e, essas mesmas metas terem obrigação de nos maravilhar. A realidade é que nem todas as metas nos maravilham. Quantas metas nós traçamos e sonhamos sem termos firmemente certeza do termo das mesmas e se elas são um acrescento ou não?

Acho que é importante que o ser humano (se o é) tome a noção de relatividade, tudo é passível de ser defendido e contrariado.

Boa noite.

Marta disse...

Eduardo, quanto à definição do que pode ou não ser entendido como arte, entendo-o quando diz que "Tudo pode ser passível de ser arte, cabe-nos a nós classificar se o é ou não".

Obviamente que tudo na vida e na nossa forma de explicar o mundo, como forma de adaptação, passa por nomear. Inclusivamente a forma de trazermos ao nosso campo estético o que nos emociona como arte.

Embora nos pareça uma escolha individual, é sempre necessário ressalvar o contexto destas escolhas. Pois acredite, nunca são inocentes, e menos ainda virgens.Por isso se olhar bem à sua volta entenderá este processo mais como uma forma de identificação de grupos (mais como tribos).Mais do que a visão romântica de um indivíduo que do seu "espaço interior" desperta o afecto por um "objecto" nunca memorizado.

Pode não acreditar, e agora não teria muito mais tempo para lhe explicar melhor, mas a memória tem muito peso nas nossas escolhas. E agora mais uma vez nunca uma memória se faz só mas em contexto numa memória colectiva. A minha memória neste contexto trabalharia de forma diferente na China (por exemplo) ao influenciar as minhas escolhas estéticas.

Boa noite

Eduardo Cardozo disse...

Como é óbvio o meio no qual estamos inseridos influência bastante as nossas escolhas. Vivemos eternamente condicionados a conceitos estéticos, éticos, morais, políticos religiosos etc. e é isso mesmo que nos faz humanos. A arte é não mais que uma forma de expressão do ser humano. O ser humano expressa-se na arte e, ao expressar-se, demonstra o seu íntimo. Tenho firme certeza que o espaço geográfico é condicionante no entanto não podemos ter a ideia de que o meio físico é dono e senhor da arte e da criação. A arte é bela quando caminha lado-a-lado com a espontaneidade e com o espaço interior de cada um de nós. Não devemos apesar de tudo achar que toda a obra produzida pelo ser humano está totalmente dependente dos grilhões do espaço físico em que o mesmo se encerra. O mundo é tão grande e tão pequeno actualmente, aldeia global no seu esplendor!

Esta frase explica muito do meu pensamento em ralação à arte. Basicamente quanto mais nos abstrairmos do meio em que estamos inseridos mais artistas nos tornamos: "Ter formação e ser exposto a ideias não é tudo - tem de haver uma sensibilidade inata. Há pintores muito novos, que nunca saíram daqui e criam coisas muito interessantes. Há um certo isolamento, claro... mas talvez isso seja bom, porque o excesso de informação que existe no Ocidente é paralisante" Al-Hiyari.

Apesar de tudo compreendo e aceito o seu ponto de vista, apenas discordo levemente de certas abordagens.

Cumprimentos.

Marta disse...

Cumprimentos